75 ANOS ATRÁS – 5/9/17

75 anos atras

Estava eu completando 15 anos no dia 31 de agosto. Esses 15 anos são um dos eventos celebrados por muitos.

As mocinhas, em muitos lugares, comemoram com um baile, o que representa a disponibilidade oficial para pretendentes (de 20 a 50 anos). Os mocinhos, não tem baile, mas em geral deixam de usar as calças curtas dos moleques e iniciam a usar as calças compridas.

Na Itália Fascista a passagem era marcada pela passagem, no organização GIL (Gioventú Italiana del Littorio) da “Balilla moschettiere” com calça curta, para “Avanguardista” com calça comprida e um belo casaco.

Na manhã, bem cedo daquele dia, deixei a casa dos avós, onde estava de férias, e fui a pé, mais de dez quilômetros para Pescara, onde minha mãe morava e trabalhava como costureira, aproveitando-se do prestígio de vir de Milano (Milão) já capital da moda.

Para me agradar convidou-me a almoçar com ela, no Hotel “Cad’oro” ou nome parecido, bem do lado da estão ferroviária. Antes a minha recusa (não queria ser objeto de atenção dos clientes da minha mãe), fomos no restaurante da própria estação… Aí comemos e bebemos e chegada a sobremesa, uva branca maravilhosa, tentei pegar um dos bagos… tentei, mas não conclui o ato. Estrondos poderosos, tremor de terra, fumaças, poeira e pedações de não sei o que, emprenharam o ar circunstantes; saímos do restaurante, deixando atrás os destroços de vagões de passageiros e nos encontramos na praça da estação, vazia e fumacenta. Não vimos o hotel “Cad’oro”, foi literalmente pulverizado e, soubemos depois, que ninguém se salvou. Um canto do hotel de uns cinco a seis metros sobrestava isolado como sinal da tragédia e assim ficou por muitos e muitos anos depois do fim da guerra.

Fugimos, como todos, rumo ao mar, e daí rumo norte, centenas e milhares de pessoas apavoradas.

O que tinha acontecido? Estávamos em guerra e os exércitos aliados, já tinham ocupado a Sicília e tinham iniciado a ocupação da bota iniciando de baixo. O rio Pescara, que atravessava a cidade tinha duas pontes relevantes, a rodoviária, belíssima com estátuas representando “Indústria e Agricultura” e não sei mais o que, e a ponte ferroviária de singela estrutura metálica. Esta eram as linhas de comunicação e abastecimento do exército italiano e alemão. O objetivo dos aliados era a da destruição das pontes.

O bombardeamento, “a tapete” como se dizia então, consistia em cobrir o objetivo com uma “faixa” de bombas de 200 a 300 metros de largura e quilômetros, quilômetros e meio de cumprimento (isso foi o que aconteceu em Pescara).

A descarga das bombas começou justamente na estação e, deviam acertar as pontes, se seguissem o rumo sul, mas não, ninguém sabe porque, iniciaram sim na estação, mas foram no rumo sul este, isto é, atravessaram toda a cidade.

Bem a guerra chegou para mim aos 15 anos exato, a guerra que acompanhava lendo os jornais do avô, deixaram de ser “literativa” e passou a ser vida vivida (os sobreviventes).

Resultado familiar.

Minha irmã que estava do outro lado do rio, lá ficou com tios e avôs, e a reencontrei somente depois do fim da guerra…

Um primo meu, ultra simpático, Achille, era o mais jovem de três irmãos; o mais velho fez a guerra, do primeiro ao último dia, como marinheiro sinaleiro da corveta “Libra”, o segundo ficou somente dois anos na força aérea, ambos passaram incólumes pela guerra… e Achille? O mais jovem trabalhava no correio, e o correio foi atingido e Achille, civil, foi o único ferido da família.

A minha outra irmã estava num colégio perto de Como e lá ficou. Mas nos reencontramos todos somente dois anos depois… Meu pai, vivia sozinho em Nuero, Sardegna.

Por hoje é só, mas as peripécias só começaram em 31 de agosto de 1943, só começaram. Somente para ilustração sucinta, o 8 de setembro o governo italiano pediu o armistício, o dia 9, o rei Vittorio Emanuele III e o general Badaglio, chefe do governo, fugiram de Roma, passaram por Pescara e foram para Bari, cidade do Puglia já em poder dos aliados e especificamente da VIII Armada Inglesa.

O dia 11 de setembro, os alemães convidaram a população a retirar do parque ferroviário de Pescara, todos os alimentos que se encontravam nos vagões atingidos ou impossibilitados de circular pelos estragos as linhas férreas pelo bombardeio. Claro que foi, tinha 15 anos e 11 dias, depois de dar uma boa olhada ao redor estava pensando no que fazer quando ouvi um leve murmúrio… sim, o barulho de dezenas e dezenas de bombardeios quadrimotores… de longe… parecia um murmúrio.

Era, e ainda sou, bastante rápido nas decisões.

Sabendo que a ponte ferroviária estava no extremo do parque ferroviário, e portanto, “objetivo militar”, corri rumo a uma grande brecha de muro que separava o parque da via Salaria, a antiga, porém asfaltada, estrada romana que levava a Roma. Atravessei a brecha e fui voando quando ainda ninguém tinha se apercebido do perigo. Voei através de jardins e árvores, morro acima, contente porque estava me afastando rapidamente da área do “objetivo militar”, a ponte… Acordei num hospital de Terano, cidade a cerca de 60 quilômetros de Pescara. Fiquei sabendo, dois anos depois, a guerra terminada, que os bombardeios aliados erraram de novo, desta vez rumo sul oeste, e arrasaram por completo o morro cheio de árvores e jardins.

 

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