A primeira fase foi na lavoura…

Já viram um cidadão, de cidade, acostumado a igrejas, museus, bibliotecas e teatros, de repente ser jogado, literalmente, no mato sem cachorro e, ainda sem a mínima noção do que devia e podia fazer?

Bem, esta era a situação do animadíssimo Zé ao chegar em São Paulo, diretamente de Milão, em 1953.

De imediato depois de “construir” um abrigo, resolveu que devia desmatar o terreno, mais de um milhão de metros quadrados. Sabiamente, achou que cinco alqueires era muita terra, e decidiu desmatar somente a metade. Ficou sabendo depois que era aquela mata denominada de “capoeirão”. Derrubado, então, o capoeirão, na metade da área adquirida viu que precisava limpá-la do amontoado de árvores... Fez juntando-as e queimando-as. Viu que a área com a mata derrubada era bem grande e resolveu queimar as árvores abatidas somente em metade da área.

Aí é que descobriu: primeiro, que precisava destocar as raízes das árvores; segundo, que este trabalho era bem mais difícil e fatigante do que cortar árvores. Resolveu assim reduzir a metade da área a destocar. Com a ajuda do melhor dos três cavalos doidos que um fazendeiro vizinho (seis quilômetros) ficou contente em ceder, conseguiu, o pobre Zé, destocar, finalmente, uma boa área. Depois precisou ará-la com a ajuda do citado cavalo menos doido dos seus outros dois colegas. A área destocada de um lado e o cavalo semidoido do outro fizeram com que o Zé cansado resolvesse reduzir a metade da área a arar. Mas, foi arado.

Agora precisava aplainar o terreno, preparar buracos para colocar as mudinhas de tomate que já estavam prontas no viveiro e enfiar um cano de bambu ao lado de cada uma, sobre o qual as plantinhas poderiam se apoiar. Era um extermínio de canas de bambu.

Eram diversas centenas de canas que precisavam ser achadas, cortadas, limpas e apontadas. Por isso, resolveu plantar somente a metade da área disposta com as canas. Mesmo assim aos olhos e braços cansados do Zé, a área plantada continuava a ser um extermínio.

Nos livros sempre se lê que o bom lavrador após o plantio, descansa, aguardando o fruto do seu labor.

Pode ser... pode ser com trigo, milho e soja, mas não com os tomates. Precisam de “defensivos” assim afirmavam os livretos de instrução da Cooperativa Cotia, defensivo contra as pragas (insetos e insetinhos) que proliferavam principalmente em terra recém-desmatada e cercada ainda pelo tal do capoeirão.

O defensivo era um produto supervenenoso, da RHODIA, mortal para as pragas, era perigoso para os homens também. As instruções do rótulo eram claras: não inalar, usar luvas, as roupas utilizadas deveriam ser utilizadas somente para esta função, lavar-se cuidadosamente depois do serviço feito, etc, etc, etc.

O Zé espargiu conscientemente este veneno, a intervalos de quinze dias. Não foi nada agradável este período, ainda com a morte a espreita. A caveira preta na lata do defensivo era uma clara advertência.

Mesmo assim, ou por isso mesmo, o Zé fez uma experiência crucial. Colocou uns bichinhos que rodeavam, desatentos, nas proximidades, numa lata onde existia um resquício do poderosíssimo veneno. Com a falta de relógio, Zé começou a contar mentalmente e apostou consigo mesmo, que os bichinhos morreriam, no cinco, ou então, entre o dez e vinte da contagem... Chegado a 100, os bichinhos mesmo sem luvas e roupas apropriadas estavam ainda vivos e bem animados. Zé foi-se então para outros afazeres, bastante perplexo. Voltou meia hora depois, lá estavam os bichinhos ainda animados tentando sair da lata... Zé deu um pontapé na mesma, liberando os insetos que foram embora, tratando dos próprios afazeres. Zé se sentiu ludibriado, gastou dinheiro, tempo e esforços para o poderoso defensivo que, no fim defendeu coisa alguma.

Bem, os tomates cresceram, esperou os primeiros vermelhos claros, os colheu, fez uma salada, e os comeu junto com o seu substituto e... e partiu, partiu para bem longe e nunca, nunca mais o Zé quis ter algo a ver com terra, lavoura e coisa do gênero, ... nem jardim nem vaso de flor, ele não podia mais tolerar.

Ficou vacinado para sempre.

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