AS BENEMÉRITAS PREFEITURAS E OUTROS ASSUNTOS – 10/8/17

Benemeritas Prefeituras

As prefeituras da maioria das cidades do Brasil gastam parte do parco orçamento municipal para instalar um sistema de sinaleiras para facilitar o tráfego de veículos e pedestres na cidade.

Em relação aos veículos o sistema funciona, em relação aos pedestres não, apesar que em alguns casos o sinal luminoso é expresso com a figura estilizada de um homem andando (sinal verde, pode atravessar) ou vermelho, um homem parado (pare, NÃO atravesse).

Mesmo com essa explicitude, os pedestres atravessam, virando o pescoço e correndo o risdo de um torcicolo, vendo se tem carros chegando. É universal.

Em Curitiba é fácil encontrar-me.

Quando virem alguém, sozinho, aguardando abrir o sinal verde… bem, aquele sujeito sou eu.

A prefeitura de Curitiba instalou em algum ponto o sinal verde, mostrando até quantos segundos, faltam para o sinal tornar-se vermelho. Não adiantou nada, fora do que eu mesmo, todos já passaram com o sinal vermelho: adultos, crianças, idosos com e sem bengala, mulheres com criança de colo, adulto “ensinando” as crianças como desrespeitar sinais de trânsito e, vi, oh como vi, uma mulher ajudar um velhinho cego a atravessar a rua… com sinal vermelho.

Enfim, em Curitiba, o sinal vermelho é obedecido somente pelos motoristas e, na condição de pedestre, somente por mim.

Tem muitos curitibanos que estiverem na Suíça e gostam de contar que lá, mesmo a noite, com as ruas vazias, o suíço pedestre, para, sozinho na noite escura, aguardando o sinal verde autorizar a sua travessia. Quem conta termina com grandes gargalhadas junto com os amigos que além de gargalhar em uníssono, sentem um pouco de inveja pelo amigo ter ido na Suíça e ter presenciado tal absurdo.

No aspecto do sinal verde ou vermelho, não precisa invejar, aqui mesmo, encontrará sempre o Zé Ninguém, sozinho, aguardando o “verde”.

Sempre sozinho? Não! Uma vez vi um sujeito, jovem com mochila nas costas, também parado ao sinal vermelho.

Pensei, deve ser um estrangeiro desconhecedor dos costumes locais.

Mas não, pelas roupas deduzi que era brasileiro, talvez até paranaense ou quiçá, curitibano.

Pela idade deduzi que podia ser estudante universitário. Então, cogitei em qual faculdade podia estudar, conclui, com segurança, que somente podia ser estudante de medicina ou de direito.

Porque esta segurança?

Se fosse estudante de medicina, saberia bem que qualquer acidente, mesmo leve, produziria sequelas para o resto da vida, sequelas leves ou graves dependendo da gravidade do acidente e do pronto e adequado atendimento, nem sempre rápido e nem sempre possível ou eficaz.

Se fosse estudante de direito, saberia bem que qualquer acidente, mesmo leve, ocorrido em lugar impróprio (fora das faixas) e do tempo impróprio (vigência do sinal vermelho) implicaria ao atingido, infrator das duas contingências citadas, além de ficar com a perna quebrada cuja recomposição e custos estarão a seu cargo (as seguradoras não pagam se o infortunado foi imprudente) deverá, portanto, o próprio infortunado, pagar também o prejuízo advindo a viatura investidora. Para choque, para lama, talvez para brisa, nunca porém o diferencial, o transeunte infrator, não é um trator infrator, não pode ter prejudicado o diferencial de jeito nenhum. De qualquer maneira, fica o aviso, o condutor do veículo investidor pode incluir no rol dos danos, alguns anterior ao acidente.

Tudo isso me passou pela cabeça no espaço de milissegundos, por fazer parte da minha bagagem cognitiva.

Agora, no tempo real, depois de uma hesitação de um segundo ou segundo e meio, me dirigi ao estudante.

“Desculpe mas, você é estudante de medicina ou de direito?”

Queria verificar qual das duas possibilidades era a certa.

“… não, nem um nem outro, sou de arquitetura.”

“… mas porque então está parado no sinal vermelho?”

“… sinal vermelho? … nem reparei… estou parado pensando se vou para casa ou como um lanchinho* aqui, … tenho aula daqui a uma hora e meia”.

Por sorte o sinal ficou verde e eu atravessei rapidinho… bem rapidinho, deixando o estudante de arquitetura ainda parado cogitando se ia para casa ou não.

 

(*)      O termo “lanche” ou “lanchinho” de uso popular não existe na língua portuguesa, existe merenda.

Merenda, refeição ligeira entre as refeições principais.

O estudante de arquitetura não sabia nada disso… coitado… mas é assim a vida vivida, se atravessa com o vermelho e se usam termos ingleses, sem saber que ingleses são.

 

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