CENSURA X MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO – 28/5/18

MPT

Zé Ninguém (ou seja, eu) leu nos jornais que a TV GLOBO estreou em 14 de maio de 2018 uma nova novela das 21 horas denominada “Segundo Sol”, ambientada na Bahia.

Decorreu desse fato que, o Ministério Público do Trabalho – MPT (entidade desconhecida pelo Zé Ninguém e talvez por dezenas de milhões de trabalhadores…) enviou uma reivindicação a TV GLOBO na qual constatava que na dita novela não atuavam atores negros, nem mulatos e que a Bahia, como detém o maior percentual destes afrodescendentes em todo o Brasil, deveria ser melhor representada, com isso, intimou a TV GLOBO a corrigir esta anomalia (desigualdade étnica) e caso não fosse cumprida, incorreria em penalidades.

Tratarei dessa representação do MPT, deixando a resposta da TV GLOBO para o final.

Acontece, e aqui começa a disquisição do Zé Ninguém, que uma novela televisiva pode ser assemelhada (a muito custo, é verdade) a uma obra literária, com autor e direitos de reprodução, garantidos por lei.

Enquanto obra literária, ninguém, mas ninguém mesmo, pode imiscuir-se na mesma.

Se for de qualidade, pode atravessar séculos e milênios; se não for, pode ser esquecido em anos, meses e semanas.

Fixa-se então, que o autor pode expressar-se livremente, mesmo que erradamente do ponto de vista étnico, como no caso em questão, mas a responsabilidade em relação ao sucesso ou insucesso da obra é dele e somente dele (e da TV GLOBO que pode perder audiência).

Os erros, literários ou não, são do autor e devem, ser sim relevados, mas também aceitos. Serão os espectadores e a posteridade que emitirão o juízo final.

Dias atrás assisti na TV, a obra “Morte em Veneza” na qual nenhum veneziano tinha papel relevante.

No filme “Vocanze Romane” nenhum romano apareceu nos papéis, principais e até secundários.

Muitos romances e filmes ambientados em diversos locais ao redor do mundo não tiveram a participação de atores indígenas.

Todos os grandes autores, Shakespeare, Dante, Goethe criaram comédias, dramas e tragédias sem serem afligidos por pruridos étnicos. Shakespeare, por exemplo, além dos branquelos, Hamlet, Macbeth e Henrique, cantou, quando quis, a tragédia de um “moro” em Veneza, o escuríssimo Otello sem imposições do Ministério Público do Trabalho de Sua Majestade à Rainha da Inglaterra.

Dante… bem, a estória de Dante, que teve o acesso negado pelas forças infernais que não quiseram que ele entrasse na cidade de Dite (no inferno) e longa demais, mas que bate sempre na mesma tecla: o autor é livre para escrever o que bem entende; aos pôsteres o julgamento.

Voltemos ao tema inicial.

Sem dúvida, o povo brasileiro, antes de uma possível volta da CENSURA, se levantaria como um só homem (ou mulher) protestando violentamente.

Ora, o que seria a censura? Seria a proibição de divulgar algo, seja no campo político ou literário.

O que pretende o MPT?

Quer impor a divulgação de algo.

Comparando os malefícios das duas medidas coercitivas, eticamente insustentáveis, fica evidente que a segunda é mais perniciosa. Convenhamos, ocultar algo é ruim, impingir algo é bem pior.

Meu querido e assanhado leitor me adverte: o Zé Ninguém está equivocado no seu arrozoado.

Diz ele, que o MPT, protege toda classe de trabalhadores e os atores são mero trabalhadores executando um projeto (o roteiro da novela). Portanto, rebate, a novela não seria uma obra literária (coisa evidente a qualquer alfabetizado), mas sim um projeto, digamos industrial, dentro, portanto, da legislação trabalhista.

Ah bom.

… e a resposta da TV GLOBO à representação do MPT?

Bem, meus amigos, foi a mais covarde e triste possível.

Concordou em “reparar” a falha do projeto (o roteiro da novela) que vai obrigar o autor a inventar personagens banais e baianos a ser inseridos convenientemente por imposição legal.

Se bem me lembro, isso era prática comum na literatura soviética no tempo de Stalin.

 

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