Quem é o Zé Ninguém? De onde veio? E por que tem este apelido que aparenta denegrir o próprio sujeito?

Bem, vamos por partes... De onde vim e por que esbarrei no Brasil?

Vim de Milão, a cidade do Alfa Romeo, da Isotta Fraschini (o Rolls Royce italiano) de inúmeras outras fábricas e negócios, cidade das artes e dos artistas... Eu ainda não tinha este nome, Zé Ninguém, mas já podia assim me classificar... Resolvi sair da Itália, isso foi logo após o fim da 2ª guerra mundial, na qual participei, veja só, como um ilustre zé ninguém.

Como escolheu o Brasil?

Fácil, segui a ordem alfabética da lista telefônica dos Consulados Estrangeiros situados em Milão:
• Albânia: negativo, deviam estar brabos com os italianos que uma década antes, os tinham invadido;
• Arábia Saudita: muita areia, demasiada;
• Argélia: estavam brigando com os franceses, deixa para lá.
• Argentina: OK, tentamos:

– Alô é do Consulado Argentino?

– Sim Senhor, o que manda?

– Bem, eu queria emigrar para a Argentina, o que devo fazer?

– Primeiro, tem que ter passaporte válido, depois, se tiver título de estudo deve ser validado aqui no Consulado, têm algumas taxas e procedimentos obrigatórios, depois atestado de boa conduta... entende? Nada de criminosos no nosso País (Eichmann não foi pego lá?) depois um atestado médico que demonstre que não tem doenças infecciosas ou que o inabilitem a um trabalho produtivo, depois...

O deixei falando... desliguei o telefone. Continuei.
• Austrália: ... sim, talvez, ... mas é longe demais;
• Áustria: neca de Europa;
• Bélgica: como já disse, neca de Europa;
• Bolívia: onde se situa mesmo?
• Brasil: quem sabe! Vamos tentar...

– Alô é do Consulado Brasileiro?

– Sim Senhor, o que manda?

– Bem eu queria emigrar para o Brasil, o que devo fazer?

– Venha logo aqui que daremos um jeito.

Assim foi e vim.

Veio de quê?

De navio claro, era o ano de 1953. A Panair do Brasil já fazia voo de Milão para o Rio, mas para que a pressa? Peguei o navio AUGUSTUS, claro que na terceira classe. Me asseguraram que não tinha a quarta classe... De fato averiguei e não tinha mesmo! Cabine de quatro leitos e banheiro externo, em compensação a comida era ótima. Tocavam uma música estranha, descobri depois, que era samba...

Cheguei em São Paulo, me instalei numa pensão barata na Rua Piratininga (ou nome parecido) no Brás. Era uma rua transversal à direita da Rangel Pestana, a quarta ou a quinta travessa, bem perto de um cinema gigantesco, talvez o maior da cidade.

Fui visitar um primo desconhecido meu que morava nos arredores de Piedade (nome apropriado). Camus, sim ele mesmo, o escritor francês “amigo” de Sartre (que eu saiba ele não tinha amigos) quando passou por Piedade a chamou de “cidade triste”. Bem, meu primo, casado com mulher e filhos, trabalhava numa fábrica de móveis famosa na época, e tinha adquirido 25 alqueires de terra acidentada e cheia de mato.

Lembrei-me que queria começar do zero, cortando os laços com a civilizada, mas, na época, paupérrima, cidade de Milão. Sim, estava pronto para começar do zero. O meu primo me cedeu cinco alqueires... e lá fui eu, o Zé Ninguém.

Primeiro passo, me inscrevi na Cooperativa Cotia (99,5% de japoneses), comprei um monte de ferramentas agrícolas, cama, colchões, etc. Veio a carga completa de um caminhão que descarregou tudo na beira da estrada. Descobri aí, naquela ocasião, que nos trópicos o sol se põe rapidamente. Eis aí o Zé incompetente, sozinho no meio do mato, no escuro. Tinha comprado também um lança chama (agrícola), mas não um lampião... Enfim, consegui montar uma cama, achar colchão e cobertores, passando, vestido, a primeira noite da fase “zero”.

Foi aí então, que eu, Zé Ninguém, comecei a minha carreira em “terra brasilis”.

Nasceu em um lugar longínquo e ignorado.

Tão longínquo, que o mesmo, após o seu nascimento, nunca voltou lá.

A família de origem pobre e desunida criou filhos pobres e desunidos (lamentável).

Estudou pouco e mal... mas se formou em uma escola ainda do tempo de Napoleão (que supera, porém, as escolas do gênero de hoje).

Escorraçado da Europa devastada e desanimada aportou no Brasil onde... leia CANSEI DE TORCER PELO BRASIL.

Dados complementares atuais...

Zé Ninguém é engenheiro agrimensor, pelo Instituto Técnico C. Cattaneo, Milão. Atualmente, o autor é diretor da G.TECH - Gerenciamento Técnico de Empreendimentos e também diretor da RDR Consultores Associados, onde realiza atividades relacionadas a projetos hidrelétricos. Participou do projeto Itaipu desde o estudo de inventário. Participa também de projetos de saneamento ambiental no setor de resíduos sólidos. Atuou em Brasília como consultor do DNAEE, atual ANEEL.

O nome dele é Elio Ermanno Ruzzi.